segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Em homenagem a Moacyr Scliar.

Os namorados da filha.

Quando a filha adolescente anunciou que ia dormir com o namorado, o pai não disse nada. Não a recriminou, não lembrou os rígidos padrões morais de sua juventude. Homem avançado, esperava que aquilo acontecesse um dia. Só não esperava que acontecesse tão cedo.
Mas tinha uma exigência, além das clássicas recomendações. A moça podia dormir com o namorado:
-Mas aqui em casa.
Ela, por sua vez, não protestou. Até ficou contente. Aquilo resultava em inesperada comodidade. Vida amorosa em domicílio, o que mais podia desejar? Perfeito.
O namorado não se mostrou menos satisfeito. Entre outras razões, porque passaria a partilhar o abundante café-da-manhã da família. Aliás, seu apetite era espantoso: diante do olhar assombrado e melancólico do dono da casa, devorava toneladas do melhor requeijão, do mais fino presunto, tudo regado a litros de suco de laranja.
Um dia, o namorado sumiu. Brigamos, disse a filha, mas já estou saindo com outro. O pai pediu que ela trouxesse o rapaz. Veio, e era muito parecido com o anterior: magro, cabeludo, com apetite descomunal.
Breve, o homem descobriria que constância não era uma característica fundamental de sua filha. Os namorados começaram a se suceder em ritmo acelerado. Cada manhã de domingo, era uma nova supresa: este é o Rodrigo, este é o James, esté o Tato, este é o Cabeça. Lá pelas tantas, ele desistiu de memorizar nomes ou mesmo fisionomias. Se estava na mesa do café-da-manhã, era namorado. Às vezes, também acontecia - ah, essa próstata, essa próstata - que ele levantava à noite para ir ao banheiro e cruzava com um dos galãs no corredor. Encontro insólito, mas os cumprimentos eram sempre gentis.
Uma noite, acordou, como de costume e, no corredor, deu de cara com um rapaz que o olhou apavorado. Tranquilizou-o:
-Eu sou o pai da Melissa. Não se preocupe, fique à vontade. Faça de conta que a casa é sua.
E foi deitar.
Na manhã seguinte, a filha desceu para tomar café. Sozinha.
- E o rapaz? - perguntou o pai.
- Que rapaz? - disse ela.
Algo lhe ocorreu, e ele, nervoso, pôs-se imediatamente a checar a casa. Faltava o CD player, faltava a máquina fotográfica, faltava a impressora do computador. O namorado não eram namorado. Paixão poderia nutir, mas era pela propriedade alheia.
Um único consolo restou ao perplexo pai: aquele, pelo menos, não fizera estrago no café-da-manhã.

(Revista Zero Hora, 26/04/1998)

E quero estar ao seu lado para todo o sempre.

Um "eu te amo" ou "você é minha melhor amiga" não são suficientes para expressar essa linda relação que temos. Às vezes nem eu a compreendo, pois em certos momentos ela se torna tão profunda que considero-me incapaz de tentar defini-la. 
O que posso dizer? Sim, eu amo você no sentido real e verdadeiro da expressão. Sim, eu confio em você a ponto de entregar-lhe a minha vida. Sim, eu te respeito e te admiro profundamente. E por mais que não pareça algumas vezes, eu compreendo você e compartilho de muitos medos, angústias e pensamentos e sentimentos.
O que quero dizer com tudo isso? Quero estar ao seu lado nessa caminhada até o último dia, porque você me faz feliz, você consegue entender o que se passa dentro de mim, você é verdadeira comigo e, quando me abraça, eu sinto o calor do amor.



quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Soneto do amigo.

Enfim, depois de tanto erro passado
Tantas retaliações, tanto perigo
Eis que ressurge noutro o velho amigo
Nunca perdido, sempre reencontrado.


É bom sentá-lo novamente ao lado
Com olhos que contêm o olhar antigo
Sempre comigo um pouco atribulado
E como sempre singular comigo.


Um bicho igual a mim, simples e humano
Sabendo se mover e comover
E a disfarçar com o meu próprio engano.


O amigo: um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica...


Vinicius de Moraes

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Com vocês, Drummond.

Gosto de compartilhar poemas, crônicas, contos etc. Todas as formas de expressão devem ser valorizadas e conhecidas por todos.
Hoje, mostrarei um poema de Carlos Drummond de Andrade, cujo título é Balada do amor através das idades.

Eu te gosto, você me gosta
desde tempos imemoriais.
Eu era grego, você troiana,
troiana mas não Helena.
Saí do cavalo de pau
para matar seu irmão.
Matei, brigamos, morremos.

Virei soldado romano,
perseguidor de cristãos.
Na porta da catacumba
encontrei-te novamente.
Mas quando vi você nua
caída na areia do circo
e o leão que vinha vindo,
dei um pulo desesperado
e o leão comeu nós dois.

Depois fui pirata mouro,
flagelo da Tripolitânia.
Toquei fogo na fragata
onde você se escondia
da fúria do meu bergantim.

Mas quando ia te pegar
e te fazer minha escrava,
você fez o sinal-da-cruz
e rasgou o peito a punhal...
Me suicidei também.

Depois (tempos mais amenos)
fui cortesão de Versailles,
espirituoso e devasso.
Você cismou de ser freira...
Pulei muro de convento
mas complicações políticas
nos levaram à guilhotina.

Hoje sou moço moderno,
remo, pulo, danço, boxo,
tenho dinheiro no banco.
Você é uma loura notável,
boxa, dança, pula, rema.
Seu pai é que não faz gosto.
Mas depois de mil peripécias,
eu, herói da Paramount,
te abraço, beijo, casamos.


sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Mário Quintana.

Amar: fechei os olhos para não te ver e a minha boca para não dizer... E dos meus olhos fechados desceram lágrimas que não enxuguei, e da minha boca fechada nasceram sussurros e palavras mudas que te dediquei... O amor é quando a gente mora um no outro.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

E então, como foi?

Ótimo!
Meu primeiro dia de aula no terceiro semestre de Letras, na FURB, foi ótimo!
Algumas coisinhas ruins aconteceram, mas o que importa é que revi meus amigos lindos, que amo, amo e amo; tive minha primeira aula de Literatura (já não aguentava mais esperar) e, novamente, voltei ao ambiente que tanto amo: a escola - no caso, a universidade, mas nem faço distinção.

Estou super empolgada, pois agora tenho como ocupar minha mente e não pensar nenhuma besteira. Não pensarei em possíveis problemas, e nem falarei nos reais problemas (se é que eles realmente existem). Se, por ventura, algum aparecer por aí, será resolvido e não discutido.

Vou agora iniciar minhas pesquisas, voltar a escrever com mais entusiasmo e aproveitar cada segundo das aulas e das oportunidades que eu tiver na faculdade.

PS.: Como foi booom abraçar vocês, meus amigos lindos: Thais, Ju e Abner. Gabi, você fez falta. Estou com saudades. Amo todos!



A foto é do ano passado, mas tá valendo!


segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Inicia-se uma nova etapa.

Que dia é hoje? Primeiro dia de aula. Mas não é um primeiro dia qualquer. É o primeiro no terceiro semestre do curso de Letras :D
Estou tão empolgada! Até parece ser a primeira vez que eu pisei na universidade. Quero tanto ver meus amigos, abraçá-los beeem forte e dizer que senti saudade. Quero conhecer meus novos professores, as novas disciplinas, os novos colegas de turma, a nova sala etc, etc e etc.
Será uma ótima noite, tenho certeza.
Amanhã eu escrevo sobre como foi.
Até!

domingo, 13 de fevereiro de 2011

A grande guerra.

As árvores sempre amaram os homens, desde o princípio dos tempos. Confessam este amor sem parar, as horas todas do dia. Mesmo quando a luz se retira e elas desaparecem de nossa vista, continuam a dizer que nos amam, fazendo perfume para a nossa noite e música para os nossos sonhos.
Mas as árvores não são apenas os maiores artistas que exitem; são também os mais sábios cientistas. Se a gente lotasse o Mineirão de cientistas, os cem mil sábios ali reunidos saberiam muito menos do que uma árvore. E a mais profunda e indispensável ciência da árvore é transformar veneno em ar puro.

Muitos poucos homens, por incrível que pareça, entendem a língua das árvores. Um em mil? Talvez nem isso. Um dia, por causa dessa ignorância, reunidos numa sala fechada, os homens declararam guerra às árvores.
Observados hoje, depois que tudo aconteceu, os motivos alegados parecem ridículos. Há árvores demais no mundo, diziam. - Já começam a invadir as nossas terras. - Melhor enfrentá-las e transformá-las em objetos úteis: casas, móveis, navios, lenha. - Não podemos é permanecer de braços cruzados. - O progresso exige que acabemos com as árvores.
Argumentos, de fato, ridículos; mas os argumentos a favor de todas as outras guerras são muito parecidos, depois de vistos (como se diz) à luz da história.
Foram mobilizados facões. machados, serrotes. O mais terrível guerreiro era um que ama o combante por si mesmo, capaz de lutar indiferentemente pelo bem ou pelo mal, capaz de cozinhar para o homem, sem que esse gesto simpático signifique bondade; em outra oportunidade, esse mesmo guerreiro poderá destruir sem remorso a humanidade inteira. Seu nome é Fogo.
E a guerra começou. As árvores, que também não entendem a língua dos homens, apesar de amá-los, continuaram em paz, a fazer o que sempre fazem: sombra, flores, frutos, desenhos, poesia. E a transformar veneno em oxigênio.

Foi uma guerra feia e covarde. Todos os homens, quase todos (com exceção das pessoas de ouvido fino, que entendem a língua dos vegetais), entraram na luta de extermínio. Quem não pertencia a um exército regular, punha o machado no ombro e saía pela manhã para brigar sozinho. Os mais humildes, que nem dispunham de machadinha, armavam-se de fósforo ou isqueiro. Até as crianças, as mais assanhadas e menos inteligentes, participavam da guerra, e da maneira mais diabólica: construíam balões que, levados pelo vento, causavam perdas incalculáveis ao doce e inocente inimigo.
Essa guerra foi iniciada na era da civilização, há algumas centenas de anos, quando o homem aprendeu a fazer navios ligeiros, pontes sólidas, casas confortáveis e catedrais belíssimas.
Foi iniciada e jamais teve trégua, presseguindo até o dia d ehoje, auxiliada agora pelas armas modernas, como a serra elétrica e o trator.
Desarmadas, ou armadas apenas de boa vontade, as árvores opuseram uma única resistência: foram criando outras árvores, tantas quanto podiam no furor da batalha, na esperança de que, findas as hostilidades, outras plantas crescessem e continuassem a fazer oxigênio, sombra, flores, frutos, perfumes, desenhos e poesia.
Mas acontece o seguinte: como imensas florestas já tombaram na luta, dando lugar a amplidões estéreis, o número de árvores em nosso tempo é insignificante. O número de homens, pelo contrário, tornou-se (como dizem) uma verdadeira explosão.
Assim para dizer tudo em poucas palavras, a vitória dos homens contra as árvores está muito próxima. No ritmo em que vamos, em pouco tempo não ficará uma floresta em pé.

Há um único problema: estamos enfrentando agora novos inimigos, aqueles que aparecem quand as árvores morrem: os riachos e os rios estão secando-se de sede, atormentando os homens; os temporais adoidados destroem as plantações. atormentando os homens; os animais desaparecem, atormentando os homens; a terra arrebenta-se e não presta para mais nada, atormetando os homens; o sol queima as sementeiras e castiga toda a criação, atormentando os homens. Em vez de dar música nas ramagens, a ventania dá medo; em lugar de perfume, aspiramos o fumo das máqunas; em troca da poesia, vamos entrando cada vez mais por uma paisagem sem flores, sem pássaros, sem verde. E já estamos sentindo falta de ar.
Superpovoada de homens e despovoada de árvores, a própria Terra, a única que possuímos, chega ao fim e aos poucos morre.
Resultado final: as árvores perdem a guerra e os homens ganham o inferno.

(Crônica escrita por Paulo Mendes Campos)

sábado, 12 de fevereiro de 2011

É preciso ser forte.

Quando somos pequenos, nossa vida é um mar de rosas. Nossas únicas preocupações são com os horários dos desenhos, em cuidar da caixa de chocolates e de fazer nossos deveres da escola rapidinho para ir brincar na rua. A medida em que o tempo vai passando, novas responsabilidades nos são encarregadas, mas nada que faça com que arranquemos nossos cabelos.
Aos 18 anos, a bomba estoura em nossas mãos. Dá a impressão de que os problemas estavam guardados em um buraco na terra e que, ao completarmos a maioridade, todos foram desenterrados.
Eu sempre tive paz em minha casa (quando eu tinha uma). Minha família se dava bem, todos se reuniam ao menos uma vez na semana e a vida continuava bela. Hoje vivo um pequeno inferninho. E como não sou a pessoa mais controlada emocionalmente, digo que tentar ser forte é um desafio. Porém, é um desafio a ser superado. Os problemas podem ser grandes, mas não maiores do que a minha fé. Tudo sempre deu certo e não seria agora que tudo iria desandar. Preocupo-me somente com meus pais, quero que eles tenham a melhor vida possível. Se assim for, eu estarei bem também. O resto, quero mais que se exploda.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

De grão em grão a galinha enche o papo.

E dia após dia, a Elaine emagrece um pouquinho mais! :D

Um quilo em 10 dias. Muitos ainda sumirão, hahaha.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Compartilhando leituras.

Optei, para essa semana, ler somente livros de crônicas. Selecionei três: A culpa é do mordomo e outras crônicas e Mania de grandeza e outras crônicas, ambos do escritor catarinense Maicon Tenfen, e Os bares morrem numa quarta-feira, de Paulo Mendes Campos.

Já li Mania de grandeza e agora estou lendo o livro de Paulo Mendes Campos. Minha opinião: leia. Você se sentirá bem melhor com esses textos críticos, engraçados, apaixonantes. Vale a pena, com toda a certeza.

Fica a dica! ;)

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Quando está certo, damos os parabéns!

No dia 26 de janeiro escrevi sobre uma reportagem que a Rede Globo produziu e que foi transmitida pelo Jornal Nacional. Essa reportagem se referia ao desastre de 2008, em Santa Catarina. O problema dela é que foi mostrada uma realidade incorreta. Dizia que todos os atingidos pela tragédia tinham se reerguido, tinham suas casas próprias e que os habitantes de Blumenau e região tinham recebido total apoio dos políticos catarinenses.Não foi a toa que coloquei como título do post "Notícia errada".

A reputação do jornalismo, entretanto, foi salvo por uma outra emissora: a Rede Record. Na última semana, eles produziram uma reportagem especial sobre o mesmo assunto. Os repórteres vieram à Santa Catarina, entrevistaram o povo da região - e não os políticos -, e retrataram a verdadeira situação. Expuseram o fato dos políticos locais terem desviado verbas, da maioria das pessoas não terem ganhado suas casas, e do descaso, principalmente, com os bairros mais afastados do centro da cidade.
Claro que fizeram um pouco de propagando do Grupo Ressoar, que doou várias casas, porém, deram ao Brasil a verdade.

São em reportagens assim que vemos quem realmente faz um jornalismo de verdade!

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Pessoas habitadas, por Martha Medeiros

Estava conversando com uma amiga, dia desses. Ela comentava sobre uma terceira pessoa, que eu não conhecia. Descreveu-a como sendo boa gente, esforçada, ótimo caráter. "Só tem um probleminha: não é habitada". Rimos. É uma expressão coloquial na França — habité — mas nunca tinha escutado por estas paragens e com este sentido. Lembrei-me de uma outra amiga que, de forma parecida, também costuma dizer "aquela ali tem gente em casa" quando se refere a pessoas que fazem diferença.

Uma pessoa pode ser altamente confiável, gentil, carinhosa, simpática, mas se não é habitada, rapidinho coloca os outros pra dormir. Uma pessoa habitada é uma pessoa possuída, não necessariamente pelo demo, ainda que satanás esteja longe de ser má referência. Clarice Lispector certa vez escreveu uma carta a Fernando Sabino dizendo que faltava demônio em Berna, onde morava na ocasião. A Suíça, de fato, é um país de contos de fada onde tudo funciona, onde todos são belos, onde a vida parece uma pintura, um rótulo de chocolate. Mas falta uma ebulição que a salve do marasmo.
 
Retornando ao assunto: pessoas habitadas são aquelas possuídas, de fato, por si mesmas, em diversas versões. Os habitados estão preenchidos de indagações, angústias, incertezas, mas não são menos felizes por causa disso. Não transformam suas "inadequações" em doença, mas em força e curiosidade. Não recuam diante de encruzilhadas, não se amedrontam com transgressões, não adotam as opiniões dos outros para facilitar o diálogo. São pessoas que surpreendem com um gesto ou uma fala fora do script, sem nenhuma disposição para serem bonecos de ventríloquos. Ao contrário, encantam pela verdade pessoal que defendem. Além disso, mantêm com a solidão uma relação mais do que cordial.

Então são as criaturas mais incríveis do universo? Não necessariamente. Entre os habitados há de tudo, gente fenomenal e também assassinos, pervertidos e demais malucos que não merecem abrandamento de pena pelo fato de serem, em certos aspectos, bastante interessantes. Interessam, mas assustam. Interessam, mas causam dano. Eu não gostaria de repartir a mesa de um restaurante com Hannibal Lecter, "The Cannibal", ainda que eu não tenha dúvida de que o personagem imortalizado por Anthony Hopkins renderia um papo mais estimulante do que uma conversa com, sei lá, Britney Spears, que só tem gente em casa porque está grávida.

Que tenhamos a sorte de esbarrar com seres habitados e ao mesmo tempo inofensivos, cujo único mal que possam fazer é nos fascinar e nos manter acordados uma madrugada inteira. Ou a vida inteira, o que é melhor ainda.